26/01/2026
Férias para mente, sobrecarga para o corpo: por que a coluna entra em modo de alerta nesta época?
Ortopedista explica como viagens longas, excesso de esforço, mudanças na rotina e exercícios sem preparo impactam a coluna e aumentam as queixas musculares
Férias, viagens, malas, praia, churrasco, longas horas na estrada e aquela promessa clássica de “agora vou voltar a me exercitar”. O cenário parece perfeito, mas, para o corpo, especialmente para a coluna, ombros e pescoço, o verão costuma ser tudo, menos descanso. Não por acaso, janeiro costuma liderar queixas de dores lombares, torcicolos e dores musculares nos consultórios de ortopedia. O alerta é do médico ortopedista Márcio Godinho, da Hapvida Bauru, que explica que o problema não está na estação do ano, mas sim na forma como as pessoas costumam mudar drasticamente suas rotinas nesse período.
“O corpo sente o impacto da quebra de hábitos. As pessoas param atividades físicas regulares, exageram em esforços pontuais, passam horas sentadas em viagens longas e dormem fora da própria cama. Tudo isso se soma e cobra seu preço”, explica.
Entre os principais gatilhos estão a interrupção abrupta dos exercícios, o famoso efeito “atleta de fim de semana”, quando pessoas sedentárias se jogam em caminhadas longas, futebol ou treinos intensos, além de viagens prolongadas em má postura, noites mal dormidas em colchões improvisados, estresse, cansaço e o carregamento de peso excessivo, como malas, mochilas e até crianças.
O corpo avisa
E engana-se quem acha que a dor surge do nada. Na maioria das vezes, o corpo envia sinais claros de que algo não vai bem. O problema é que eles costumam ser ignorados.
“Fadiga muscular excessiva, rigidez ao acordar ou depois de muito tempo sentado, dores musculares intensas que duram vários dias, desconforto articular persistente e até cãibras frequentes são alertas clássicos”, destaca Godinho. Segundo ele, quando a dor muscular pós-exercício passa de incômodo para incapacitante, é sinal de sobrecarga.
Outro indicativo importante é a redução da amplitude de movimento, aquela sensação de que o pescoço, as costas ou as articulações “não se movem como antes”. “Isso mostra que o corpo já está entrando em um estado de defesa”, completa o médico.
Vilão no carro
Entre carregar malas pesadas, dormir fora da própria cama e passar horas viajando, o médico aponta para um fator que costuma liderar o impacto negativo sobre a coluna: o tempo prolongado sentado em má postura.
“Ficar horas imóvel no carro ou no ônibus aumenta a pressão sobre os discos da coluna lombar e provoca fadiga muscular. Isso deixa a coluna vulnerável, pronta para ‘travar’ ao menor movimento errado depois”, explica o ortopedista.
Para minimizar os danos, ele recomenda pausas a cada 1h30 ou 2 horas para caminhar, ajustar corretamente o banco, com leve inclinação e apoio lombar. “Pode ser até mesmo uma toalha enrolada”, ensina. Além disso, é preciso manter os joelhos um pouco acima do quadril.
Já no caso das malas, a regra é usar rodas sempre que possível e levantar o peso sempre com as pernas, nunca forçando a coluna.
Sinais de alerta
O médico orienta ainda que nem toda dor é motivo de alarme, mas algumas exigem atenção imediata.
“Dor associada a perda de força, formigamento intenso, dificuldade para controlar urina ou fezes, febre, perda de peso inexplicada ou após traumas como quedas e acidentes, precisa de avaliação médica imediata”, reforça. Pessoas com histórico de câncer, osteoporose grave ou uso prolongado de corticoides também devem redobrar o cuidado, aponta.
A forma como se carrega peso também faz toda a diferença. “Movimentos repetitivos com carga, mesmo que pequena, mas em má postura, são grandes causadores de microtraumas”, alerta o médico.
Mochilas também devem ser usadas com as duas alças, bem ajustadas ao corpo e acima da cintura, e o peso não deve ultrapassar 10% a 15% do peso corporal. Bolsas de ombro precisam ter o lado alternado com frequência, e malas, sempre que possível, devem conter rodas. “O princípio é manter a carga próxima ao centro do corpo e evitar lesões”, orienta.
Quer se mexer? Comece devagar
O ortopedista é categórico na orientação a quem vê nas férias a chance de sair do sedentarismo: “a pressa é inimiga da coluna. Avaliação médica, progressão gradual, aquecimento adequado e descanso são pilares para evitar lesões”.
“Aumentar intensidade ou duração dos exercícios em mais de 10% por semana é um erro comum também. O corpo precisa de tempo para se adaptar”, ensina Godinho. Hidratação e alimentação adequada também entram na lista de cuidados essenciais pontuados por ele.
Como conselho final, o médico derruba um mito bastante popular. “A ideia do ‘no pain, no gain’ é perigosa, principalmente para iniciantes nos exercícios. Dor em articulação que não cede após o repouso ou dor muscular frequente, incapacitante e que dura mais de 3 dias, não é sinal de evolução, é aviso de que algo está errado. O melhor é sempre buscar ouvir o corpo”, indica Márcio Godinho.